“E quando ouvir o silêncio sorridente (...)
Diante da chacina.
— Caetano Veloso & Gilberto Gil
O Núcleo de Preservação da Memória Política expressa seu mais profundo repúdio diante da grave violação de direitos humanos ocorrida nos Complexos do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro, em 28 de outubro de 2025, quando uma “megaoperação” policial resultou em mais de cem mortes, entre elas moradores, trabalhadoras(es), jovens e policiais no cumprimento de ordens.
O luto das famílias se soma à dor coletiva de uma nação que insiste em repetir seus piores fantasmas. A necropolítica institucionalizada — que transforma territórios populares em zonas de extermínio — expõe o fracasso do Estado em garantir o direito à vida e a persistência de um modelo de segurança pública que replica as lógicas autoritárias da ditadura militar em uma história de longa duração.
A impunidade que protegeu torturadores e mandantes do passado abriu caminho para a naturalização das execuções sumárias e da brutalidade policial do presente. O Brasil nunca completou seu ciclo de Justiça de Transição: não responsabilizou torturadores e violadores de direitos do passado, não reformou suas polícias e não democratizou suas instituições armadas. Assim, a violência de Estado se reinventa, com outros nomes, mas com o mesmo alvo: os corpos negros, pobres e periféricos, agora tratados como “inimigos internos”.
Vivemos num tempo em que o “estado de exceção” deixa de ser uma aberração e se torna um modo de ação. A periferia, convertida em território de exceção, é o espaço onde a vida pode ser menospreza.
Reafirmamos que o combate ao crime organizado é uma necessidade inadiável no Brasil. É preciso desfazer as redes de comando, os circuitos financeiros e políticos que sustentam o crime.
O “silêncio sorridente” de setores da sociedade é inaceitável, ele perpetua o ciclo da barbárie. Não há democracia onde a vida é banalizada; não há Estado de Direito diante de graves violações de direitos fundamentais.
A memória é a primeira forma de justiça. É por ela que denunciamos a continuidade de uma estrutura de insegurança pública, que oprime e destrói em nome da lei. E é também pela memória que reafirmamos a urgência da Justiça de Transição como instrumento de ruptura com a impunidade, para que crimes de ontem e de hoje não sejam esquecidos nem repetidos.
O Núcleo Memória exige investigação independente e responsabilização exemplar pelos crimes cometidos nesta operação, bem como o fim das políticas de extermínio que se tornaram uma desprezível rotina.
Por memória, verdade, justiça e reparação.
São Paulo, 30 de outubro de 2025
Núcleo de Preservação da Memória Política