No último dia 29 de novembro, foi realizada a última edição do Sábado Resistente em 2025, com o tema “Povos Indígenas e Memória: Resistência e Violações de Direitos”, no auditório do Memorial da Resistência de São Paulo. A atividade integrou a programação anual do projeto “Brasil que Resiste: Lugares de Memória e Lutas por Justiça”, realizada em parceria entre o Memorial da Resistência e o Núcleo Memória.
A edição completa pode ser assistida aqui.
A abertura institucional contou com a saudação de Ana Pato, diretora técnica do Memorial da Resistência, e de Katia Felipini, diretora técnica do Núcleo Memória, que trataram sobre o início dos trabalhos voltados à história indígena por parte das instituições ligadas à memória e aos direitos humanos, destacando a importância de debates como o do dia para fortalecer e promover essa pauta.
A mesa foi mediada por Vanessa Medeiros, indígena do povo Tapuia Tarairiú e integrante do Núcleo Indígena e Quilombola da Comissão de Direitos Humanos da OAB/SP. Em suas palavras iniciais, Vanessa trouxe reflexões sobre a diversidade de povos no sertão nordestino e sobre como essa multiplicidade foi invisibilizada na migração desses grupos para o Sudeste, uniformizando identidades distintas sob a categoria genérica de “nordestinos”.
A primeira fala foi de Paula Capriglione, coordenadora do Armazém Memória, que apresentou o trabalho desenvolvido pela instituição e seu acervo documental voltado à preservação da memória das lutas dos povos no Brasil. Com destaque ao material coletado sobre os povos indígenas, ressaltou a importância da salvaguarda de documentos para enfrentar o apagamento histórico e fortalecer processos de justiça e reparação.
Em seguida, Poty Poran, indígena Guarani Mbyá e moradora da Terra Indígena Jaraguá, abordou as permanências autoritárias que ainda incidem sobre os povos indígenas. Poty destacou que a guerra contra os povos originários, iniciada com a invasão em 1500, só encontrou um marco de interrupção formal com a Constituição de 1988 e o processo de demarcação das terras indígenas, embora sejam representações de uma vitória dos homens brancos ao pautarem, unilateralmente, quais são os direitos reconhecidos aos povos originários.
A terceira intervenção foi de Aly David Orellana, amazônida do povo Ava-Guarani e supervisor do Núcleo de Formação do Museu das Culturas Indígenas (MCI). Aly tratou da política de assimilacionismo e integracionismo promovida pela ditadura militar, que buscava apagar as diferenças entre povos e impor padrões culturais das grandes cidades do Sudeste a realidades diversas. Comentou, entre outros aspectos, o papel dos livros didáticos nesse processo, reforçando narrativas que negavam histórias de resistência e promoviam uma visão homogeneizante dos povos indígenas.
Encerrando a atividade, Flávio Bastos, conselheiro do Núcleo Memória e professor de Direito do Mackenzie, apresentou episódios emblemáticos da violência contra os povos indígenas durante a ditadura militar, como o funcionamento do Reformatório Krenak e a atuação da Guarda Rural Indígena. Flávio estabeleceu paralelos entre esses casos e o presente, citando a construção da Usina de Belo Monte mesmo sob alertas da Corte Interamericana de Direitos Humanos. Finalizou trazendo avanços recentes na construção da Comissão Nacional da Verdade Indígena, que tem contado com protagonismo dos próprios povos nas reivindicações por justiça e reparação.
Com esta edição, chega ao fim a programação de 2025 dos Sábados Resistentes. Em breve, será anunciada a agenda de 2026, dando continuidade ao compromisso de fortalecer o debate público, a memória e a defesa dos direitos humanos e da democracia.