No último dia 11 de outubro, foi realizada mais uma edição do Sábado Resistente de 2025, com o tema “Religião e Direitos Humanos: a Resistência das Comunidades de Fé”, no auditório do Memorial da Resistência de São Paulo. A atividade integrou a programação anual do projeto “Brasil que Resiste: Lugares de Memória e Lutas por Justiça”, promovido em parceria entre o Memorial da Resistência e o Núcleo Memória.
A edição completa pode ser assistida aqui.
A abertura foi conduzida por Antônio dos Santos, produtor cultural do Memorial da Resistência, e César Novelli, do Núcleo Memória, que deram as boas-vindas ao público e destacaram a importância de refletir sobre o papel das religiões no contexto atual. A mediação ficou a cargo de Oswaldo de Oliveira, mestre em Ciências da Religião e colaborador do Núcleo Memória, que conduziu a mesa costurando as falas e valorizando a diversidade presente no encontro.
Felippe de Logun Edé, Babá Kekerê do Axé Ilê Obá, abriu as falas apresentando o terreiro como espaço de resistência ao racismo. Explicou que as religiões de matriz africana desempenham papel essencial na recuperação e valorização das múltiplas culturas do continente africano, combatendo a visão colonial que reduz a África a uma unidade homogênea.
Na sequência, Flávia Odenheimer, integrante do Coletivo Vozes Judaicas por Libertação, refletiu sobre como a religião tem sido mobilizada, em diferentes contextos históricos, como instrumento de poder e dominação. Ressaltou que “as religiões não são sobre isso” e relacionou essa análise ao genocídio em curso na Faixa de Gaza, destacando a necessidade de que as comunidades de fé se articulem em defesa dos povos oprimidos e dos direitos humanos.
Paulo Pedrini, coordenador da Pastoral Operária Metropolitana de São Paulo, compartilhou sua trajetória ao lado de Dom Paulo Evaristo Arns, relembrando episódios marcantes da resistência da Igreja Católica à ditadura militar. Narrou as pressões sofridas por Dom Paulo para cancelar o ato ecumênico em homenagem a Vladimir Herzog, após ameaças dos militares, e destacou a coragem das lideranças religiosas que mantiveram a cerimônia, denunciando os crimes do regime e dando voz às vítimas da repressão.
Em seguida, Anivaldo Padilha, membro da Igreja Metodista e ex-preso político, contou um pouco de sua história, entrelaçada com o início das igrejas protestantes no Brasil. Relatou que, nas décadas de 1930 e 1940, essas comunidades, então minoritárias, eram fortemente marcadas por uma preocupação social e por engajamento político. Destacou que o primeiro evangélico eleito no país, Guaracy Silveira, membro da Constituinte de 1946, defendia princípios como o ensino laico e a separação entre Igreja e Estado — mostrando que o conservadorismo religioso não é uma característica essencial dessas tradições, mas resultado de conjunturas históricas específicas.
Encerrando as falas, Valéria Vilhena, coordenadora do movimento Evangélicas pela Igualdade de Gênero, destacou o crescimento dos evangélicos na sociedade e na política, chamando atenção para a composição majoritariamente feminina e negra das igrejas. Apontou a necessidade de combater discursos e práticas que utilizam a fé como instrumento de dominação e de construir espaços de religiosidade que valorizem a diversidade, a defesa das liberdades democráticas e os direitos sociais.
O próximo Sábado Resistente será realizado no dia 22 de novembro, às 14 horas, com o tema “Povos Indígenas e Memória: Resistência e Violações de Direitos”. Mais informações serão divulgadas em breve.