As apresentações da edição de 12 de setembro dos Sábados Resistentes destacaram a permanência de uma cultura autoritária, o racismo e as desigualdades presentes nos sistemas prisional e policial brasileiros. Os debates também abordaram o uso da violência e do punitivismo como capital político-eleitoral, em detrimento dos direitos humanos.
Bruna Ferrari, pesquisadora do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (USP), concentrou suas reflexões nos processos de produção do conhecimento e no impacto institucional sobre corpos marginalizados. A pesquisadora destacou as diferenças entre a Operação Contenção, realizada nos complexos do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro, com 122 mortes, e a Operação Carbono Oculto, realizada na região da Faria Lima, em São Paulo, sem mortes. O exemplo foi utilizado para discutir o caráter letal das operações realizadas nas periferias e a persistência de uma cultura autoritária no país.
Dimitri Sales, advogado e professor universitário, analisou a trajetória da segurança pública e o processo de transição democrática no Brasil. Segundo sua análise, as reformas não foram capazes de construir um modelo de segurança baseado na cidadania, mantendo a militarização das polícias, sua condição de forças auxiliares do Exército e o uso recorrente da violência. Para Sales, esse cenário também contribuiu para problemas na gestão estadual da segurança pública e para o surgimento de milícias no Rio de Janeiro.
Fábio Pereira Campos, abolicionista penal e articulador da Associação de Familiares e Amigos de Presos/as e Internos/as da Fundação CASA (AMPARAR), apresentou propostas e alternativas para repensar a segurança pública sob uma perspectiva abolicionista e antipunitivista. Entre os pontos abordados estiveram a retomada da polícia comunitária, a reestruturação do Ministério da Segurança Pública e a valorização das resistências históricas e das tecnologias comunitárias desenvolvidas desde o período da escravidão.
As análises apresentadas ao longo do encontro convergiram na crítica ao atual modelo punitivo e autoritário e na defesa da construção de práticas de segurança pública democráticas, humanizadas e efetivamente vinculadas à cidadania e aos direitos fundamentais.
Diante desse cenário, marcado por debates sobre crise democrática e controle social da pobreza, a mensagem final do encontro enfatizou alternativas como o controle civil das polícias, o fortalecimento das ouvidorias e a adoção de processos de justiça de transição que assegurem reparação e verdade às vítimas.
Em razão das eleições, os Sábados Resistentes retornaram no dia 14 de novembro, com o tema “Democracia e Colapso Climático”.
Siga os perfis do Núcleo Memória nas redes sociais e participe da campanha de arrecadação de recursos para apoiar seus projetos.
Instagram: @nucleomemoria