Já pode chamar de regime militar?

26/02/2021

Na primeira noite, eles se aproximaram sorrateiros e ocuparam o Ministério da Defesa. Foi no governo de Michel Temer, em fevereiro de 2018, antes do dilúvio. General da reserva, Joaquim Silva e Luna rompeu um jejum de 19 anos, desde a criação da pasta, tradicionalmente ocupada por civis. Não dissemos nada. Sabíamos pouco sobre aquele ministério. Além do mais, tal indicação nos pareceu fazer algum sentido. Um militar para administrar as Forças Armadas, que mal poderia haver?

Imagem: Pedro Ladeira/Folhapress

Na segunda noite, ainda sob Temer, eles voltaram mais animados. Dominaram a Abin, a Funai e até a chefia do gabinete da Casa Civil. Para comandar a Agência Brasileira de Inteligência foi nomeado o general Sérgio Etchegoyen, herdeiro de longa tradição verde-oliva, um dos raros militares a criticar publicamente a Comissão Nacional da Verdade por listar seu pai, Leo, e seu tio, Cyro, entre os violadores de direitos humanos citados no relatório final. Na Funai, o general de brigada Franklimberg Ribeiro de Freitas deixou a pasta um ano depois sob a acusação de ter contribuído para aumentar em 18% a mortalidade infantil nas populações indígenas durante sua gestão. Nada dissemos. Não somos indígenas. E, da Abin, preferimos manter distância segura.

Na terceira noite, ninguém precisou se esconder. Agora o presidente da República era um deles. De menor patente, é verdade, e um tanto indisciplinado, mas ainda assim um deles. O vice-presidente também. Quem sai aos seus não degenera, diz o ditado. Fato é que, na terceira noite, eles não apenas pisaram as flores e mataram nossos cães como acamparam no gabinete da Casa Civil e urinaram na porta para marcar território. Um militar na Casa Civil? Pois é, parece pegadinha de programa de TV, mas lá estava o desbragado Braga Netto, o mesmo general que assumiu o comando da intervenção militar no Rio de Janeiro, em fevereiro de 2018, dias antes do assassinato de Marielle. Respeitado no Exército como um militar durão e experiente, Braga Netto se orgulha de ter dado uns choques. De gestão. Mas não era só ele. Na mesma noite, a coordenação política é oferecida ao novo secretário de Governo, o general da reserva Santos Cruz, veterano da campanha no Haiti, que em pouco tempo passa o ponto para um general da ativa, Luiz Eduardo Ramos. Nem sequer ligamos.

Até que, um belo dia, um general assume o Ministério da Saúde em meio à maior crise sanitária da história do Brasil. Agora vai, comemoram alguns, depositando suas últimas esperanças na disciplina fardada. Autoridade para decretar lockdown? Assertividade para elaborar uma estratégia de ação? Celeridade para organizar uma logística infalível de distribuição de máscaras, oxigênio, leitos e vacinas? Nada! A falta de virtú de Bolsonaro diante da crise sanitária mundial lhe garantiu um lugar entre os piores governantes do planeta, escreve João Roberto Martins Filho, professor titular da UFSCar e ex-presidente da Associação Brasileira de Estudos de Defesa (ABED), no livro Os militares e a crise brasileira (Alameda, 2021), organizado por ele e com lançamento marcado para o próximo dia 16.

Com tudo isso, observa o professor, os soldados continuaram solidários ao príncipe. Na ausência de movimentos sociais que pudessem requentar seu anticomunismo da guerra fria, militares palacianos e da reserva passaram a publicar cartas abertas ou escrever manifestos, onde o novo inimigo era o Supremo Tribunal Federal, acusado de procurar impedir Bolsonaro de governar. De uma hora para outra, brotou na caserna o interesse pelo Direito Constitucional, e o artigo 142 da Constituição, que define o papel das Forças Armadas, passou a ser interpretado como base para uma eventual intervenção militar ´moderadora´. Nem um manifesto de 700 juristas, nem a manifestação do Supremo convenceram os generais do absurdo de sua doutrina.

Em meio ao caos, um general acometido por uma grave doença degenerativa lança um livro de memórias reconhecendo que mediu forças com o STF ao exigir, via Twitter, a prisão do ex-presidente Lula faltando seis meses para a eleição. Dias depois, outro general é indicado para comandar a Petrobras. E, ao apagar das luzes do Carnaval que não houve, dois membros do Exército são nomeados para o Comitê de Combate à Tortura. Já pensou? A Terra plana capota. Vivemos num regime militar, não restam dúvidas. E já não podemos dizer nada.


Camilo Vannuchi é jornalista e escritor com ênfase nos direitos humanos. É mestre e doutor em Ciências da Comunicação pela USP, onde integra o Grupo de Pesquisa Jornalismo, Direito e Liberdade, filiado à Escola de Comunicações e Artes e ao Instituto de Estudos Avançados. Foi membro da Comissão da Memória e Verdade da Prefeitura de São Paulo (2014-2016). Atuou como repórter e editor nas revistas IstoÉ e Época São Paulo e foi colunista no site da Carta Capital. É autor da biografia Marisa Letícia Lula da Silva (Alameda, 2020).

Colunista do UOL

 

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