A revolução dos jovens do Chile contra o modelo social herdado de Pinochet

25/11/2019

Os estudantes se rebelam há mais de uma década contra o sistema educativo implantado na ditadura. Desta vez, conseguiram o apoio de grande parte da sociedade chilena

A jovem prefere não dar seu nome. É uma cautela frequente. Talvez por uma (justificada) desconfiança em relação à imprensa, talvez pelo medo de expressar opiniões que divergem do sentimento coletivo. Um grupo de estudantes se senta na Avenida Providencia e bloqueia o trânsito ao meio-dia também prefere que seus comentários sejam atribuídos a “nós”. “Nós queremos que este sistema injusto acabe agora, que os repressores paguem e que o Chile deixe de ser propriedade dos cuicos [classe alta e dominante]”, diz uma adolescente de uniforme, pouco antes de os Carabineros dispersarem o grupo com jatos de água.

Os estudantes que bloqueiam o trânsito não pertencem a famílias pobres, mas tampouco se sentem parte desse “núcleo” abstrato que costuma ser resumido em alguns sobrenomes transformados em símbolos (Larraín, Walker, Edwards, Zaldívar) e recitados como uma oração. Não há dúvida de que o sistema privilegia os poderosos. Um claro exemplo disso foi o dos empresários Carlos Délano e Carlos Lavín, que ano passado, após cometerem uma enorme fraude fiscal, foram condenados a uma pena de quatro anos de prisão que o próprio juiz substituiu por uma obrigação de comparecer a aulas de ética. “Os abusos são escandalosos”, diz um executivo espanhol que trabalha para uma empresa chilena.

“Lutamos pela educação, mas também por aposentadorias decentes, por um salário mínimo digno, pelo direito ao aborto, pelo fim do sistema opressivo”, enumera o porta-voz estudantil Víctor Chanfreau. “Que não nos digam que essas coisas não são assunto nosso, porque são: afetam nossos familiares e nos afetarão no futuro”, diz.

Chanfreau, que foi detido algumas vezes durante os mandatos de Bachelet e Piñera, é neto de Alfonso Chanfreau, um desaparecido na ditadura de 1974. Não recrimina os pais pelo medo de protestarem nas ruas. “Eles sofreram a ditadura militar e uma repressão terrível. É normal. Entendo que minha mãe tema por mim”. O importante, segundo ele, é que o medo esteja se transformando em “raiva, alegria, capacidade de organização”. “Nós, jovens, não somos os heróis dessa história. Cada pessoa que se mobiliza é heroica”, afirma.

Fonte: ENRIC GONZÁLEZ - EL PAÍS

 


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