A liberação do passado

30/07/2021

“Quem controla o passado, controla o futuro”. Essa frase de 1984, de George Orwell, é uma das mais importantes lições a respeito do que é efetivamente uma ação política. Toda ação política real conhece a importância de compreender o passado como um campo de batalhas. Ela compreende que o passado é algo que nunca passa por completo. A definição mais correta seria: o passado não é o que passa. O passado é o que se repete, o que se transfigura de múltiplas formas, o que retorna de maneira reiterada. O passado é o que faz CEOs falarem, em 2021, como senhores de escravos do século XIX, que faz transgêneros atualmente em luta falarem como pessoas escravizadas em luta séculos passados.

Nosso tempo é espesso. Nas camadas dessa espessura convivem mortos e vivos, espectros, limiares e carne. Só mesmo uma noção pontilhista e equivocada de instante pode reduzir o presente ao “agora”. O “agora” é apenas uma forma, politicamente interessada, de bloqueio do presente. Pois quem luta pela liberação do passado, luta pela modificação do horizonte de possibilidades do presente e do futuro.

Seria útil lembrar disso no Brasil, ou seja, nesse país que se especializou em procurar não falar de seu passado devido a uma certa crença mágica de que, se não falarmos dele, o passado irá embora e nunca mais voltará. Os apóstolos do esquecimento deveriam lembrar que foi assim que criamos o país da compulsão contínua de repetição. País que se acostumou a ver militares agindo como se estivessem em 1964, no qual uma política catastrófica de anistia permitiu que as Forças Armadas preservassem seus responsáveis por crimes contra a humanidade até que eles voltassem a ameaçar a sociedade. O esquecimento é uma forma de governo. A tentativa de exilar os sujeitos no presente puro é o seu braço armado mais forte. Deveríamos partir daí se quiséssemos efetivamente entender o que é o Brasil.

Dito isto, não é motivo de espanto ver alguns a criticarem uma das mais importantes ações políticas desses últimos meses, a saber, a queima da estátua do bandeirante Borba Gato, em São Paulo. Quem acha que isso é apenas um ato “simbólico” deveria pensar melhor a respeito do que compreende por símbolo e como são eles que, muitas vezes, impulsionam as lutas mais decisivas e as transformações mais impressionantes. Quando caiu, a Bastilha não era mais que um símbolo. Mas foi a queda do símbolo, foi um ato simbólico por excelência, que abriu toda uma época histórica. A modificação na estrutura simbólica é modificação nas condições de possibilidade de toda uma era histórica. Aqueles que fazem profissão de fé de “realismo político”, de “materialismo”, talvez estejam a esconder certo receio de que estruturas simbólicas fundamentais desçam as ruas e sejam queimadas.

Pois uma estátua não é apenas um documento histórico. Ela é sobretudo um dispositivo de celebração. Como celebração, ela naturaliza dinâmicas sociais, ela diz: “assim foi e assim deveria ter sido”. Um bandeirante com um trabuco na mão e olhar para frente é a celebração do “desbravamento” de “nossas matas”. Desbravamento esse que não é abertura de nada, mas simples apagamento de violências reais e simbólicas que não terminaram até hoje. Pois poderíamos começar por se perguntar: contra quem essa arma está apontada? Contra um “invasor estrangeiro”? Contra um tirano que procurava impor seu jugo ao povo? Ou contra aquelas populações que foram submetidas à escravidão, ao extermínio e ao roubo?

Um bandeirante era um caçador de homens e mulheres, ou seja, a encarnação mais brutal de uma forma de poder soberano ligado à proteção de alguns e à predação de muitos. Um bandeirante é, acima de tudo, um predador. Celebrá-lo é afirmar um “desenvolvimento” que, necessariamente, realiza-se em um país composto por uma nata de rentistas encastelados em condomínios fechados e uma grande massa que ainda hoje é caçada, que desaparece sem rasto nem traço.

Destruir tais estátuas, renomear rodovias, parar de celebrar figuras históricas que representam apenas a violência brutal da colonização contra ameríndios e pretos escravizados é o primeiro gesto de construção de um país que não aceitará mais ser espaço gerido por um Estado predador que, quando não tem o trabuco na mão, tem o caveirão na favela, tem o incêndio na floresta, tem a milícia. Enquanto estas estátuas estiverem sendo celebradas, enquanto nossas ruas tiverem esses nomes, esse país nunca existirá.

Quem faz o papel de carpideira de estátua acaba se tornando cúmplice dessa perpetuação. Só sua derrubada interrompe esse tempo. Essa ação é, acima de tudo, uma autodefesa. Quando a ditadura militar criou o mais vil aparato de crimes contra a humanidade, dispositivo de tortura de Estado e assassinato financiado com dinheiro do empresariado paulista, não por acaso seu nome foi: Operação Bandeirante. Sim, a história é implacável.

Como disse no início, o passado é o que não cessa de retornar. Borba Gato estava lá, nas câmaras de tortura do DOI-Codi, encarnado, por exemplo, em Henning Albert Boilesen: empresário dinamarquês presidente da Ultragaz e fundador do CIEE, que se deleitava em inventar máquinas de torturas (a pianola Boilesen) e assistir a torturas e assassinatos. Por isso, quando as estátuas começarem a cair, é porque estamos no caminho certo.

*Vladimir Safatle é professor titular de filosofia na USP. Autor, entre outros livros, de Maneiras de transformar mundos – Lacan, política e emancipação (Autêntica).

Fonte: A Terra é Redonda


Veja outros textos

Veja mais

Parlamento do Mercosul condena Bolsonaro por apoio às ditaduras na região


Rua em São Paulo troca nome de torturador por nome de torturado


O pior negacionismo


Pesquisa revela como a necropolítica e a pandemia afetam as favelas do Rio


Anistia Internacional Brasil aponta perda de direitos ao longo dos 1000 dias do governo Bolsonaro - Anistia Internacional


Paulo Freire - o combate ao analfabetismo social


Brasil se cala em reunião na ONU sobre justiça para vítimas da ditadura


Justiça condena União, Funai e MG por violações a indígenas na ditadura


HÁ 50 ANOS ENTRAVAM PARA A ETERNIDADE CARLOS LAMARCA E ZEQUINHA BARRETO, HERÓIS BRASILEIROS.


NÚCLEO MEMORIA É ACEITO COMO “Litisconsorte ativo” na Ação Civil Pública do DOI-Codi em São Paulo


O que fazer com o maior centro de tortura da ditadura?


Sábado Resistente: Direitos Humanos em Foco “A questão migratória e o fenômeno da xenofobia”


Pela criação de um Memorial no antigo DOI-CODI São Paulo


O viagra do Bozo


Jamil Chade - Lei de Anistia perpetua `cultura da impunidade` e será questionada na ONU


A destruição como estratégia


Contra deboche bolsonarista, juiz vai fazer audiência no DOI-Codi


A institucionalização do deboche


Entrego minha vida à minha classe, para que continuem a minha história


MPF oferece nova denúncia contra Major Curió, comandante de repressão à Guerrilha do Araguaia no PA durante a ditadura


A liberação do passado


Os índios não têm alma?


Circulação de armas aumenta e homicídios no Brasil voltam a crescer


Em defesa da democracia, Comissão Arns se posiciona sobre nota das Forças Armadas e reitera seu apoio à CPI da Covid, em curso no Senado


Camilo Vannuchi: A mentira está no DNA das Forças Armadas no Brasil


A Coalisão Internacional de Sítios de Consciência e a Rede Latino-Americana e Caribenha de Lugares de Memória exigem a proteção de civis no Haiti e o respeito ao Estado de Direito


Qual será o futuro do trabalho?


ONU tenta frear onda ultraconservadora liderada por Brasil


Pela reinterpretação da Lei de Anistia!


Mesa Redonda sobre comunidades indígenas e justiça transicional organizada pela Iniciativa Global para Justiça, Verdade e Reconciliação. (GITJR)


MPF obtém sentença histórica contra ex-agente da repressão por crime político na ditadura


Promotor Eduardo Valério vai à Justiça para transformar local de tortura de herói de Bolsonaro em Museu da Democracia


Barbárie, golpe e guerra civil


Carta aberta aos governadores


Da tortura à loucura: ditadura internou 24 presos políticos em manicômios


Na era bolsonarista, expor horrores da ditadura é tarefa cívica


RJ: Justiça destina à reforma agrária usina onde corpos foram incinerados na ditadura


MPF pede responsabilização civil de ex-agentes militares que atuaram na “Casa da Morte”


Brasil: Investigue Comando da Polícia do Rio por operação no Jacarezinho


Sábado Resistente - Direitos Humanos em Foco - “Vitória da Classe Trabalhadora: A longa luta operária na VW Brasil”


Um retrato perturbador


Pela graça de Deus


Renunciar à Convenção 169 da OIT é condenar indígenas ao extermínio


O vírus mais contagiante


No limite


O que torna o filme Marighella tão atual e urgente no Brasil de 2021?


A fúria transborda na Colômbia


Audiência Pública – Memorial da Luta pela Justiça


Live Conhecendo Lugares de Memória: Navio Raul Soares


Atentado do Riocentro golpeou autoridade de Figueiredo e completa 40 anos sem culpados


MPF ajuíza ação regressiva contra ex-delegado que matou militante político durante a ditadura militar


Pilha foi espancado e torturado na prisão


Homenagem a Alípio Freire


Sábado Resistente - Direitos Humanos em Foco: Memória, Verdade e Justiça


Morre Alípio Raimundo Vianna Freire


Liberar as patentes para evitar uma catástrofe


Camilo Vannuchi - O dia em que a Lei de Segurança Nacional foi condenada


Morre aos 89 anos Dr. Mario Sergio Duarte Garcia


Dois anos de desgoverno – como chegamos até aqui


Ato virtual Movimento Vozes do Silêncio | Denúncia do golpe civil militar de 1964


EUA sabiam da tortura na ditadura brasileira e poderiam intervir se quisessem


SR - Direitos humanos em foco


Os crimes cometidos pela Volkswagen na ditadura, segundo relatório do Ministério Público


Memória, impunidade e negacionismo: um país em busca de si próprio


31 de março/1º de abril de 1964


Live “Conhecendo Lugares de Memória: o Memorial da Luta Pela Justiça”


Reinterpreta Já STF


MPF recorre de acórdão do TRF3 que negou indenização à viúva de preso pela ditadura


O escândalo político acabou?


Nota sobre a decisão da Justiça em permitir a comemoração do golpe pelo Governo Federal


Justiça autoriza exército a comemorar o golpe militar de 64


Volks publica comunicado reconhecendo participação em prisões e torturas durante a ditadura


O povo não pode pagar com a própria vida!


A anulação das decisões de Moro e a sua suspeição no caso Lula: Savonarola vai a Roma.


A CIDH publica seu relatório sobre a situação dos direitos humanos no Brasil e destaca os impactos dos processos históricos de discriminação e desigualdade estrutural no país


A consciência feminista


Intelectuais escrevem “carta aberta à humanidade” contra Bolsonaro


Democracia e estado de direito vivem `retrocessos` no Brasil, alerta CID


Indigência mental e falência moral


COMISSÃO ARNS | NOTA PÚBLICA #30


Já pode chamar de regime militar?


Ministra Damares não calará a sociedade civil


DEMOCRACIA SITIADA


Os outros Daniéis Silveiras que ignoramos


Dois anos de maior acesso a armas reduziu violência como dizem bolsonaristas?


Raphael Martinelli


STF demora, e 3 acusados de assassinar Rubens Paiva morrem sem julgamento


Exonerado e perseguido por Bolsonaro, Ricardo Galvão ganha prêmio internacional de liberdade científica


NÚCLEO MEMÓRIA ingressa como “amicus curiae “ na ação popular contra a UNIÃO FEDERAL e o Ministro do Estado da Defesa Fernando Azevedo e Silva


MPF pede que STF rediscuta se Lei da Anistia é compatível com a Constituição, em ação sobre assassinato de deputado


A elite do atraso e suas mazelas


Especialistas em Direitos Humanos e Meio Ambiente dos EUA urgem Biden a se Posicionar em Prol da Justiça Social e Climática, do Estado de Direito, ao tratar de questões sobre o Brasil de Bolsonaro


Livro desfaz mito e revela ação efetiva do Itamaraty para derrubar Allende


Fachin: não aceitação do resultado eleitoral pode resultar em mortes e ditadura


Corte dos Direitos Humanos aceita como amicus curiae ação que denuncia Bolsonaro por descumprir sentença sobre Guerrilha do Araguaia


Denúncia à novos ataques ao Estado de Direito na Guatemala


Assassinatos de pessoas trans aumentaram 41% em 2020


BASTA!


A financeirização em números


Dois anos de desgoverno – três vezes destruição


Governo Bolsonaro é denunciado novamente à Corte Interamericana por insultar vítimas da ditadura


Um governo insano e genocida


Invasão do Capitólio – a face obscura da América


Pronunciamento público da Coalizão Internacional de Sítios de Consciência sobre os acontecimentos do dia 6 de janeiro em Washington


Tortura Nunca Mais Tortura é Crime


Democracia e desigualdade devem ocupar lugar central no debate político pós-pandemia


A força do autoritarismo


Anivaldo Padilha, integrante do Conselho de Administração do Núcleo Memória, recebe o Prêmio de Direito à Memória e à Verdade Alceri Maria Gomes da Silva.


Judiciário precisa frear racismo nas abordagens policiais


A tortura, essa praga que paira sobre nós


Opiniões do General Mourão em entrevista dada ao jornalista ingles Tim Sebastián da Deutsche Welle geram aditamento à ação de incumprimento pelo Estado Brasileiro


Acordo de reparação com a Volkswagen é um marco histórico e grande conquista para a memória, verdade e justiça no Brasil


ONU quer enviar missão sobre ditadura, mas Brasil não responde desde abril


Nota sobre o despejo no Quilombo Campo Grande


Lógica de usar torturadores da ditadura no crime foi usada nas milícias


Militantes de esquerda recebem carta com ameaças junto com balas de revólver no interior de SP


Bolsonaro é denunciado em Haia por genocídio e crime contra humanidade


O fenômeno do negacionismo histórico: breves considerações


Virada para “Qual democracia?”


Experiência de participação da sociedade civil nas Comissões de Verdade da América Latina


ONU cobra respostas do Brasil sobre violência policial, milícia e Ditadura


Corte Interamericana acata denúncia contra governo Bolsonaro por insulto a vítimas da ditadura


Os crimes cometidos por Major Curió, torturador recebido por Bolsonaro no Planalto


PSOL e entidades de direitos humanos denunciam governo Bolsonaro à Corte Interamericana


RESLAC MANIFESTA SEU REPÚDIO À PRISÃO DOMICILIÁRIA DE REPRESSORES NO CHILE


Falando em liberdade


Fim de semana pela memória e resistência a favor da Democracia


Levantamento mostra piora na educação, saúde e social no 1º ano de Bolsonaro


Bolsonaro corta investimentos em Educação, Saúde e Segurança


`Casa da Morte`, local de tortura na ditadura, abrigou antes espião nazista


Anistiado no Brasil, gaúcho processado na Itália pode ser o primeiro condenado por crimes da ditadura militar brasileira


Argentina avalia criar lei que criminalize os negacionistas da ditadura


Governo de Rondônia censura Macunaíma e outros 42 livros e depois recua


Médica, ativistas e parlamentares repudiam fala de Bolsonaro de que pessoa com HIV é despesa para todos: “Absurda, preconceituosa, na contramão do mundo”


Homicídios caem, feminicídios sobem. E falta de dados atrasa políticas


O nazismo não é exclusivo aos judeus. Holocausto foi tragédia humana


As pensões vitalícias dos acusados de crimes na ditadura


A semana em que 47 povos indígenas brasileiros se uniram por um manifesto antigenocídio


Relatório da Human Rights Watch denuncia política desastrosa de Bolsonaro para direitos humanos


À ONU, Brasil esconde ditadura e fala em anistiar crimes de desaparecimento


Tribunal de Justiça anula decreto do prefeito que tombou a Casa da Morte


Ato Entrega Certidões de Óbito


AI-5 completa 51 anos e democracia segue em risco


Em celebração ao Dia Internacional dos Direitos Humanos, o Núcleo Memória realizou, no dia 10 de dezembro, mais uma ação do projeto “Visitas Mediadas ao ex DOI-Codi”.


Desigualdade: Brasil tem a 2ª maior concentração de renda do mundo


Jovens se penduram em paus de arara em ato de valorização da democracia na Praia de Copacabana


Galeria Prestes Maia, no centro de SP, vai virar Museu dos Direitos Humanos


Truculência nas ruas materializa autoritarismo nada gradual


Bolsonaro é alvo de denúncia no TPI


‘Sem violar direitos humanos, é impossível normalizar o país’, diz ex-ministro de Piñera


A revolução dos jovens do Chile contra o modelo social herdado de Pinochet


Instituto Vladimir Herzog , Nucleo Memória, Comissão Arns e outras 22 organizações da sociedade civil pedem que Alesp cancele evento em homenagem a Pinochet


ONU denuncia “ações repressivas” em protestos na Bolívia que deixaram ao menos 23 mortos


Esta cova em que estás


Campanha da RESLAC: Desaparecimentos forçados nunca mais


Nota de Repúdio aos comentários de Jair Bolsonaro


Nota de Pesar - Elzita Santos Cruz


El País: A perigosa miragem de uma solução militar para a crise do Brasil


UOL TAB: Gente branca


SP - Polícia mata mais negros e jovens, aponta estudo sobre letalidade do Estado


UOL: No rastro de um torturador


Hora do Povo: Mostra de João Goulart retrata sua luta para libertar o Brasil


EBC: Prédio onde funcionou Dops em BH dará lugar a memorial de Direitos Humanos


Ato Ditadura Nunca Mais realiza arrecadação online Direitos Humanos


Núcleo Memória lança livro sobre o futuro Memorial da Luta pela Justiça


TV alemã lança filme sobre a Volkswagen e a ditadura brasileira; assista


Siga-nos

           
todos direitos reservados ©2018
icone do whatsapp, quando clicar ira iniciar o atendimento por whatsapp